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20 de abril de 2014

A CENSURA COMO ELA É: Ministro Thomas Traumann pressionou SBT para calar Rachel Sheherazade

A matéria é de Felipe Moura Brasil.

(…) Notícias da TV apurou que a medida [de cortar os comentários da apresentadora Rachel Sheherazade] foi tomada sob pressão do governo federal. Há duas semanas, [o diretor de jornalismo do SBT] Marcelo Parada se reuniu em Brasília com o ministro da Secretaria de Comunicação Social [Secom], Thomas Traumann. Na ocasião, Traumann manifestou desconforto com os comentários de Sheherazade. O ministro controla as verbas do governo federal, que investe cerca de R$ 150 milhões em publicidade por ano no SBT. (…)

Thomas Traumann é o ex-porta-voz da Presidência que, no começo deste ano eleitoral, substituiu Helena Chagas na Secom. A avaliação era que Traumann ”tem perfil mais agressivo e mais afinado com o ex-ministro Franklin Martins”, que coordena a área de comunicação da campanha de Dilma Rousseff e é conselheiro do Instituto Lula.

Só fico imaginando a doçura e a delicadeza com que um petista de perfil agressivo, afinado com o homem que luta pelo “controle social da mídia”, manifesta a um “companhêru” como o coordenador da campanha passada de Dilma, Marcelo Parada, o seu “desconforto” em relação a uma apresentadora que critica o partido de ambos na emissora cujo jornalismo este dirige. Longe de mim crer que a mãe de Sheherazade foi homenageada…

- Por obeséquio, companheiro Parada, o senhor poderia conversar com esta moça e pedir-lhe gentilmente que pegue mais leve em suas críticas ao governo? Não creio que elas sejam justas, de modo que me sinto um tanto quanto desconfortável. O senhor me faria este favor?”

- Mas é claro, companheiro Traumann, estou certo de que ela entenderá…

- Puxa vida, companheiro Parada, não sei como agradecer-lhe. O companheiro Lula vai ficar satisfeitíssimo de ver mais embasamento por parte dela ao zapear para o SBT.

- Minhas saudações ao presidente, digo, ex-presidente. Até a próxima.

- Até.

Lindo, não? Mas volto à realidade. Helena Chagas sofria um intenso bombardeio dos “blogs sujos” e dos veículos oficialistas, que cobravam mais verba oficial para prestar seus servicinhos. Após o anúncio de sua saída, “motivada por pressões do PT” e “pelo desgaste da falta de transparência com a agenda da presidente Dilma na polêmica ‘escala técnica’ da comitiva presidencial em Lisboa”, ela escreveu no Facebook que “a distribuição da publicidade oficial, que envolve dinheiro público, não pode se transformar em uma ‘ação entre amigos’”.

Deu para entender por que Helena sofria pressões (dos amigos) do PT? Ok.

E quem dizia que a comunicação do governo era “uma porcaria” e que “O Lula mantinha uma canalização de recursos para alguns blogs, mas a Dilma cortou tudo”? Ele mesmo: André Vargas, o petista hoje famoso pelo escândalo da Petrobras. Quando Helena saiu, Vargas comemorou: “Não gosto dela. A Helena foi pro pau! Beleza.” Um doce, não?

Helena, na verdade, entregou sua carta de demissão no dia 30 de janeiro, surpreendida com o vazamento da notícia de que seria substituída. Pouco mais de uma semana depois, em 7 de fevereiro, seu pai, Carlos Chagas, foi um dos três comentaristas demitidos do SBT.

Isso mesmo: coincidências da ditadura petista.

Em 2011, quando o ministro das Comunicações Paulo Bernardo falou que nenhuma proposta que ameaçasse a liberdade de expressão seria apoiada pelo governo Dilma e “o projeto de Franklin Martins está enterrado”, ele também foi atacado por dirigentes petistas – como o negador das Farc no Foro de São Paulo, Valter Pomar – que o acusaram de ter mais afinidade com as grandes redes de TV do que com o partido.

Martins, para se ter uma ideia, deixou de falar com Bernardo por causa disso.

Mas com a sua volta ao comando, trazendo Traumann para a Secom, a ala “mais agressiva” do PT se tranquilizou e os blogs companheiros celebraram. Paulo Nogueira, aquele que me chama de “o reaça-engraçado”, considerou Traumann “uma excelente aquisição” para a Secretaria. Seu irmão e colega de “Diário” Kiko Nogueira, aliás, foi um dos nove “blogueiros progressistas” que participaram da “entrevista dos camaradas” com Lula no último dia 8. Miguel do Rosário, que julgou na época a demissão de Chagas e o retorno de Martins ao núcleo “uma excelente notícia, em todos os sentidos!”, também foi um dos entrevistadores.

Aloysio Nunes Ferreira, líder do PSDB no Senado, já protocolara um requerimento pedindo a Traumann [ouça aqui] informações sobre as verbas oficiais destinadas àqueles “veículos de comunicação que são descaradamente patrocinados pelo governo, por empresas estatais, por órgãos da administração direta, cuja função é repercutir a mensagem política do PT, especialmente na difamação daqueles que se opõem ao atual governo”. Agora o Globo tentou desvendar o segredo, mas a prefeitura de São Paulo avisou que o valor pago pelos anúncios nos blogs é uma informação comercial que não costuma ser divulgada para veículos concorrentes.

“Ação entre amigos” é assim: fica só entre “amigos”.

Com a liberação do dinheiro dos brasileiros – inclusive dos que não votaram no PT – para os “blogs sujos” e as ameaças de corte do dinheiro das estatais para emissoras como o SBT, sem contar a infiltração de militantes em todas as grandes redações, o controle petista da mídia já vai funcionando como pode, embora os líderes do partido queiram sempre mais um bocado.

Rachel Sheherazade foi calada por pressão de Traumann, o companheiro de Martins – o conselheiro de Lula. Se fosse uma esquerdista, o mundo midiático teria caído em cima do governo supostamente reacionário, com manchetes em letras garrafais no alto das primeiras páginas. Como é uma reacionária, na definição rodrigueana de quem reage contra tudo que não presta, as mídias anestesiadas, infiltradas e patrocinadas pelos agentes do Foro de São Paulo preferem dar destaque às censuras de 50 anos atrás.

Só idiotas úteis ainda não entenderam que o controle da opinião pública exercido no tempo dos militares através de medida administrativas oficiais e explícitas se transformou nos tempos de ditadura petista naquele “poder onipresente e invisível” preconizado por Antonio Gramsci.

E só os militantes (ou ameaçados) para se recusar a ver censura quando ela mesma se escancara.

- Até a próxima.

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