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15 de janeiro de 2011

Despedir-se com um clique de mouse nos deixa mais covardes

adeus.COM por Gilmar Marcílio, do jornal Pioneiro

Ficou mais simples para um casal se separar. Basta entrar em qualquer rede social (Orkut, Facebook, Twitter) e num texto curto e objetivo dizer: “Foi ótimo estarmos juntos, mas cansei. Vou partir para outra.” Assim, quase indolor para quem redige, mas certamente não para quem recebe. Parece que a nova ética de comportamento autoriza e até incentiva essa postura. Tudo pode e deve ser feito sem grande envolvimento emocional. Um corte rápido, preciso, que dispensa anestesia.

Sou um grande entusiasta de qualquer possibilidade de ampliação do contato entre as pessoas. Meu anacronismo não chega a ponto de achar que tudo tenha que ser feito pingando emoção, como há séculos atrás. Cada um descobre o jeito que lhe parece mais prático e simples de iniciar e terminar uma relação. E há, claro, o problema dos tímidos crônicos. Esses que tremem diante de uma investida amorosa, que têm dificuldades homéricas em expressar o que sentem. Que seja saudada, então, essa nova forma de dizer olá que o mundo virtual colocou a nossa disposição. Mas, por trás das vantagens, desconfio que alguns malefícios também se anunciam.

Em primeiro lugar, uma ruptura online nos torna mais covardes. Deixa a alma amolecida, sem resistência. É no enfrentamento que conseguimos avaliar nossa estatura moral e desafiar a acomodação. Dizer adeus com um clique de mouse é fácil, não cobra de nós nenhum posicionamento ou exposição. Sentimo-nos desobrigados de explicar o porquê dessa decisão, de mapear as causas do rompimento e, principalmente, de ver a dor do outro. Tudo fica asséptico, perfeitamente adaptado às novas normas da etiqueta moderna. Não há mais tempo a perder com questões amorosas. Precisamos ser pragmáticos, produzir, encher prateleiras.

Outra questão. Antigamente, muito antigamente, quando o fim de um namoro ou casamento era discutido à exaustão e se esgotavam todas as possibilidades, o espaço para acertos ou rompimentos definitivos pertencia somente ao casal envolvido. E pode ser diferente? Pode. Hoje, ato contínuo a uma decisão dessas, todos os amigos são comunicados. E os amigos dos amigos também. Assim, num átimo, meio mundo fica sabendo que fulano se separou de sicrana. Passamos a ter milhares de amigos íntimos quase desconhecidos. Homens e mulheres que recebem essa informação e a espalham ou deletam em seguida. Afinal, a vida continua. Só haverá uma pausa caso um dos novos solteiros desperte algum interesse em nós. O mercado não anda tão farto assim e é preciso estar atento quando alguém descomprometido aparece.

Por fim, não se pode “apagar” tão facilmente uma pessoa da nossa vida. Exclui-se o perfil do ex-amor, mas nada garante que os conhecidos o farão. Então, mesmo que não queiramos saber como Maria ou Antônio estão, essa informação será inevitável. Basta expor-se numa festa e logo todos saberão do seu paradeiro. Ah, e com quem passaram a noite, dado de extrema relevância. Não seria o caso de dizer que estamos nos tornando grandes bisbilhoteiros? Para a antropologa americana Ilana Gershon, estudiosa do assunto, essas novas ferramentas só ampliaram nossa curiosidade sobre a vida alheia. E esse desejo faz parte da natureza humana.

Anunciar o fim de um namoro ou içar a bandeira da disponibilidade pela internet virou lugar comum. Só os jurássicos se espantam com isso. Pobres de nós que ainda acreditamos no velho olho no olho, na sacralidade das palavras molhadas de sentimento. Providenciem logo um retiro onde possamos descansar a nossa senilidade precoce. De preferência, sem antes espiar o perfil de ninguém.

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