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14 de fevereiro de 2011

Jabá e medo da internet abrem espaço nas rádios para uma nova era de criatividade

Mais com a discrição de locutor clássico do que com o alarde de FM jovem, de forma lenta e gradual, uma mudança vem se afirmando nas ondas do dial nos últimos anos, como se elas estivessem enfim em sintonia com o século XXI - programas originais, novas linguagens se estabelecendo, ousadia e qualidade na seleção musical com os quais o público já se desacostumara. E, apesar de (quase) silenciosa, ela foi percebida. O Ibope aponta um crescimento contínuo no número de ouvintes - 10% desde 2003, uma cifra aparentemente modesta, mas que ganha expressividade quando se pensa que ela se refere a um meio que parecia ultrapassado pelas novas tecnologias.

Estatísticas à parte, um levantamento informal com amigos, a observação de conversas nas ruas e nos tweets - e o testemunho de artistas e radialistas - mostra que um público que estava afastado do rádio desde a década de 1990 - não por acaso, o auge da era dos jabás - está voltando a ele.

Figura presente no rádio desde 1982 (com a lendária Fluminense FM), o DJ Mauricio Valladares, apresentador do "roNca roNca" na Oi FM (uma das pontas de lança do atual bom momento), percebe a volta do interesse e a relaciona com outra retomada:

- Posso comparar com a percepção que as pessoas têm mostrado do vinil, que é o único suporte que cresceu na década - conta o DJ. - O vinil foi redescoberto porque as pessoas cansaram de ouvir som ruim, não saber o que é uma capa bonita. O rádio passa pelo mesmo processo. Quando chegou a internet, houve o fascínio pela possibilidade de acesso a todas as informações e músicas. Mas esse fascínio tem uma validade, que expira no momento em que você não tem uma luz te dizendo para onde ir, para onde não ir e para onde ir mesmo sabendo que será uma roubada. É o comunicador o camarada que vai dizer o que você está ouvindo. E só o rádio transporta essa sensação de que, naquele momento, você está incluído num grupo. O cara que ouve meu programa em Porto Alegre se sente irmão gêmeo do cara que está no Alto José do Pinho, em Recife. Outro exemplo: eu odiava samba, mas adorava ouvir o programa do Adelzon Alves. Gostava daquela mágica de ele falar com os motoristas de ônibus, era fisgado pela dinâmica. A internet não vai ter isso nunca. O rádio é algo novo, apesar de muito velho.

Vista a princípio como rival, a internet tem papel importantíssimo para a redefinição do rádio.

- Nos anos 1960, a rádio consegue se levantar depois do baque da televisão, para onde migraram os programas humorísticos, os de auditório, as novelas. E aí vem o ostracismo dos anos 90. E a internet, que foi um susto um pouco menor do que o da TV - avalia Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto FM.

Eduardo Andrews, gerente de programação da MPB FM, concorda:

- Foi o empurrão que faltava para as rádios acordarem. Ou elas inovavam no formato e conteúdo ou morriam de vez.

Elas decidiram inovar. Hoje, se afirmam reforçando suas marcas pela atuação em diversas frentes, como selo e promoção de shows (a MPB FM seguiu esse caminho e a Oi FM, filha de uma telefônica, já nasceu sob essa égide); apostando na nova música brasileira de uma forma que não se via desde a geração 1980 do rock brasileiro, com Fluminense FM à frente; e explorando as novas ferramentas oferecidas pela internet (novamente ela). Redes sociais como Twitter e Facebook deram nova força ao velho formato de participação de ouvintes. A tecnologia ofereceu outras aberturas, como transmissão ao vivo por streaming, programas disponíveis para serem ouvidos em podcasts, vídeos com os bastidores da rádio, informações mais completas sobre os artistas que ocupam a programação... E há ainda outras possibilidades menos óbvias.

- O celular virou uma espécie de rádio de pilha - nota Eliana Caruso.

Os próprios caminhos da internet a levaram até mais próximo da linguagem do rádio - afinal, a prática de baixar músicas vem perdendo popularidade para a de ouvi-las simplesmente em sites como YouTube e MySpace.

- É uma tendência que vem se consolidando no mercado de música, a priorização do acesso ao conteúdo, no lugar da posse desse conteúdo - diz Flávia da Justa, diretora de Comunicação de Mercado da Oi, falando da versão on-line da rádio.

Além da tecnologia, fatores econômicos ajudam a entender o renascimento do rádio. A prática abusiva do jabá - com os lucros astronômicos das gravadoras pré-pirataria - homogeneizavam as emissoras, lembram radialistas e programadores. A crise da indústria fonográfica, portanto, abriu espaço para a recuperação que se consolida agora.

- O jabá devastador trouxe a perda de credibilidade. E a credibilidade num meio de comunicação vem antes da música. Hoje, como as vacas gordas do mercado fonográfico estão raquíticas, a criatividade e a qualidade podem prevalecer - defende Mauricio Valladares.

Os exemplos de criatividade e qualidade no dial hoje são muitos. Mas Pitty - que foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como revelação na categoria Rádio com o programa "Segunda-feira sem lei" (rádio Transamérica Pop), que ela apresenta com Beto Bruno e Daniel Weskler - torce para que sejam muitos mais:

- Existem programas bem legais, mas ainda são pontos de luz nesse oceano imenso. Mas já considero isso algo muito bom e torço pra que se espalhe. Gosto muito de entrar no carro e ligar o rádio, ficar à mercê do shuffle do DJ - diz Pitty, pondo conceitos da cultura digital e do rádio na mesma frequência. Fonte

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