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16 de abril de 2011

Alterações na voz e na fala decorre de tratamento recebido pela família

Foto: Susi Padilha / Agencia RBS

Imagine não conseguir se expressar por causa da gagueira ou, então, sua voz ser objeto de deboche, a ponto de lhe impedir de trabalhar, se relacionar e viver uma vida normal. Se você não sofre de nenhum distúrbio vocal, não faz ideia do drama que milhões de pessoas enfrentam todos os dias devido a alterações na voz e na fala. Além da gagueira, que atinge 1,6 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Associação Brasileira de Gagueira, outros distúrbios, como voz excessivamente fina em homens, fanha ou aguda demais e rouquidão, podem se tornar verdadeiros pesadelos.

O que revelamos neste Dia Mundial da Voz, e que muita gente desconhece, é que não é preciso conviver com esses problemas: o tratamento, na maioria das vezes, é rápido, eficaz e mais simples do que se pensa.

Segundo o fonoaudiólogo Simon Wajntraub, que, desde 1968, já tratou cerca de mil pessoas acometidas pelos mais variados distúrbios vocais afirma que em todos esses anos de consultório e curso de oratória, presenciou diversos casos em que os pacientes abandonaram os estudos e o trabalho para viver reclusos em casa, por conta da vergonha de gaguejar; homens que não conseguiam evoluir no trabalho nem conhecer mulheres por causa da voz demasiadamente fina e crianças que sofriam bullying no colégio, entre outras situações. O especialista explica que os problemas vocais atrapalham principalmente quem trabalha diretamente com o público, razão pela qual estão entre seus pacientes diversos atores, músicos, advogados e executivos.

A maioria dos problemas da voz e da fala, conforme o especialista, decorre do tratamento que o paciente recebeu da família na infância.

— O tipo de voz é assimilado pela convivência. O mimo dos pais, por exemplo, de falar com a voz fina ou infantilizada com os filhos, pode acabar fazendo com que eles fiquem com a voz melosa, afeminada ou esganiçada. O hábito de falar alto demais também: se a criança vive em um ambiente barulhento e todos na casa falam em altos brados, ela também falará — explica Simon.

Outra questão que ele relaciona à criação familiar é a timidez e a voz excessivamente baixa e/ou fina, geralmente resultado da criação por pais repressores e autoritários.
Outros distúrbios, como a voz anasalada e a rouquidão, costumam ter origens orgânicas e, portanto, mais sérias.

— Casos de voz fanha, com omissão e troca de letras, se devem a má-formações, como lábio leporino e fissura palatina. Quando a criança nasce com um desses problemas são necessárias cirurgias plásticas de correção e tratamento fonoaudiológico para que a pronúncia das palavras ocorra corretamente. Já a voz rouca, por sua vez, normalmente se inicia por um processo emocional, traumático ou não, e com o tempo vai ser tornando orgânica devido ao uso incorreto da colocação vocal — explica, lembrando que o problema é muito comum em profissionais que trabalham utilizando a voz sem impostá-la corretamente, como professores e locutores.

Tratamento envolve conscientização

Para a correção rápida dos distúrbios vocais, Simon faz uma análise minuciosa da fala do paciente, com o objetivo de chegar ao posicionamento certo da voz. A partir daí, ensina a maneira correta de pronunciar as sílabas e passa exercícios e um material audiovisual para que a pessoa possa treinar, a fim de fixar e aprimorar a técnica.

— Depois disso, o paciente participa, então, das aulas de oratória em grupo, para treinar a fala em situações de estresse e, assim, perder a inibição e manter o tom certo da voz. O carro chefe é a argumentação sob pressão — conta o fonoaudiólogo.

A dica mais importante que o especialista dá para quem tem problemas vocais é procurar ouvir a própria voz, seja em um sistema de retorno (fone de ouvido ligado a um microfone) ou por meio de uma gravação em vídeo. Ele explica que as pessoas não conseguem reconhecer a própria voz quando ouvem uma gravação, porque a ouvem de forma diferente internamente, por isso é importante escutar como a voz é realmente para saber de que forma é preciso impostá-la e quais exercícios são necessários para melhorá-la.

— Como a maioria dos casos de alterações vocais tem fundo emocional, é importante que a pessoa possa de fato ouvir a sua voz para se liberar de censuras e limitações e, assim, passar a trabalhar todo o seu potencial vocal impostando a voz no tom certo, ou seja, a faixa de frequência onde a voz flui bem e sem esforço excessivo — explica o fonoaudiólogo.

No caso das pessoas que sofrem de rouquidão, porém, o fonoaudiólogo lembra que pode ser necessário acompanhamento de um otorrinolaringologista, para que o médico verifique a existência de problemas vocais.

Para ajudar quem tem a voz muito fina, baixa ou alta, o fonoaudiólogo indica um exercício simples:

— O modo mais prático é procurar falar em diferentes tons de voz através da pronúncia de uma mesma palavra de modos diferentes, desde o tom mais grave até o mais agudo. Em seguida, fazer isso com a pronúncia de uma frase. Quando encontrar o tom em que notar que não fez muito esforço para pronunciar a frase com a voz mais encorpada, esse será o tom certo da sua voz.

Outro conselho importante do especialista para os pacientes que falam baixo demais é que tentem se soltar mais, adotando uma postura mais extrovertida e extravasando os sentimentos em voz alta. Ele chama atenção, também, para a necessidade de os pais criarem um ambiente comunicativo em casa, onde as crianças tenham liberdade de falar e se expressar livremente.

— Assim elas aprenderão a impostar bem a voz e a ter autoconfiança, que é o que falta em boa parte dos pacientes que chegam ao consultório com distúrbios vocais, e se sairão melhor ao construir relacionamentos e iniciar a carreira profissional - diz Simon.

Vejas as dicas do especialista:

:: Uma boa postura, aliada à voz pausada, confiante e clara, pode ajudar a conquistar o interlocutor logo no início da conversa. Em entrevistas de emprego, reuniões de negócios, apresentações e prospects, o profissional com uma dicção limpa, objetiva e firme consegue passar a informação de forma mais eficiente, fazendo-se compreender com mais facilidade. Desta maneira, é muito mais fácil conquistar a simpatia de quem está ouvindo e, consequentemente, vender serviços, produtos e idéias;

:: Fazer um uso saudável da voz também é muito importante, sobretudo para 70% da população ativa que têm a fala como um de seus instrumentos de trabalho. Cantores, atores, professores, técnicos de futebol (e outros esportes), repórteres, advogados, vendedores, atendentes de telemarketing e outros profissionais que dependem da voz para exercerem seus ofícios devem, essencialmente, manter hábitos saudáveis e medidas de prevenção a males prejudiciais à saúde vocal;

:: Lembre-se de manter a laringe hidratada - bebendo de sete a oito copos de água —, o que o uso de ar-condicionado e também a baixa umidade do ar podem prejudicar a voz;

:: Evite gritar, falar muito alto ou sussurrar, essas ações forçam as pregas vocais. Não fale excessivamente durante quadros gripais ou crises alérgicas, pois os tecidos que revestem a laringe ficam inchados e o atrito pode causar lesões;

:: Mulheres devem evitar falar abusivamente em período pré-menstrual, pois as pregas vocais também ficam inchadas;

:: Modere no consumo de café, chá preto e bebidas com gás antes de atividades vocais intensas. Fonte

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