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14 de julho de 2012

O acordo-relâmpago de R$ 1 bilhão do Banco Itaú com o BMG

Na primeira semana de julho, o banqueiro Flávio Pentagna Guimarães estava muito perto de vender seu banco, o BMG. Embora houvesse outro pretendente conhecido, o BTG Pactual, a negociação estava bem avançada com o Bradesco. Mas o controlador do banco mineiro ainda tinha dúvidas sobre o preço final da transação. Também temia ter de esperar por muito tempo para receber o valor total. Como em outras aquisições de bancos médios fechadas pelas grandes instituições, a última parcela do pagamento seria vinculada ao desempenho futuro do BMG, já sob novo controle acionário. “Doutor Flávio”, como é mais conhecido, atualmente com mais de 80 anos, já havia rejeitado uma oferta do BTG Pactual porque considerou o preço baixo demais.

A indefinição de Pentagna Guimarães acabou produzindo um desfecho inesperado para a trajetória do banco fundado por seu pai, Antonio, na década de 1930. Trabalhando em silêncio, o Itaú Unibanco, atacou, aos 46 minutos do segundo tempo de jogo. Mais uma vez, foi a ousadia do banqueiro Roberto Setubal, que ao perceber que a negociação do BMG estava na reta final, o levou a ligar pessoalmente para Pentagna Guimarães, com uma sugestão que soou como música aos ouvidos do patriarca da tradicional família mineira: ele não precisaria abrir mão inteiramente do banco. O Itaú assumiria apenas as operações daqui para a frente. Segundo uma fonte próxima à família, Setubal convidou Flávio e o filho Ricardo, que preside o BMG, para viajar a São Paulo, no sábado 7, e negociar.

No fim de semana, as linhas gerais do acordo foram delineadas: seria constituída uma joint venture, na qual o Itaú deteria 70% do capital, ficando os outros 30% para os Pentagna Guimarães. A estrutura do BMG repassaria à instituição 70% dos novos empréstimos gerados. O banco paulista indicaria os principais executivos na nova empresa, mas o BMG continuaria existindo separadamente. Os Pentagna Guimarães fecharam o acordo rapidamente — o contrato foi redigido e assinado na segunda-feira 9, feriado estadual em São Paulo. No dia seguinte, ao anunciar o acordo, na presença de Ricardo, o CEO do BMG, Setubal disse que o modelo escolhido facilitou as negociações. “O formato é muito simples, não exige due diligence, discussões sobre o preço ou garantias”, afirmou.

O banco BMG Itaú, que deve começar a operar até o fim do ano, nasce com patrimônio de R$ 1 bilhão e expectativa de atingir uma carteira de R$ 12 bilhões em empréstimos consignados, até 2015. O Itaú fornecerá R$ 300 milhões mensais ao BMG pelo prazo de cinco anos. A flexibilidade de Setubal como negociador já lhe rendera frutos anteriormente — o mais notável, a fusão com o cobiçadíssimo Unibanco, foi fechado numa negociação direta entre ele e o banqueiro Pedro Moreira Salles, em 2008, levou o Itaú ao primeiro lugar no ranking dos bancos privados. Há, ainda, vários outros exemplos, como a associação com Fernão Bracher, que controlava o antigo BBA, para criar o que hoje é o banco de investimentos do conglomerado, e com a seguradora Porto Seguro, do empresário Jayme Garfinkel.

É certo que os Pentagna Guimarães precisavam de uma solução com alguma urgência para os destinos do banco. As alternativas de sobrevivência do BMG, o 14º no ranking dos bancos privados nacionais, com boa rentabilidade, vinham encolhendo. Altos custos para captar recursos, novas regras exigidas pelo Banco Central (BC) para contabilizar os lucros com a venda de carteiras de crédito e a concorrência com os gigantes bancários vinham minando a instituição, uma das pioneiras nos empréstimos consignados no País, desde que esta modalidade que desconta as parcelas na folha de pagamento foi criada, no início da década passada. O banco mineiro tem a segunda maior carteira do País desse produto, de R$ 28 bilhões, atrás apenas dos R$ 56 bilhões emprestados pelo Banco do Brasil.

(O Itaú, que tem uma carteira de crédito total de R$ 400 bilhões, tem só R$ 11 bilhões em consignado e fica em sexto lugar.) Sua rede é composta de 580 lojas próprias, mais de mil correspondentes bancários e contratos com mais de 30 mil agentes de crédito. No ano passado, o BMG iniciou um tímido processo de diversificação para outras carteiras de crédito pessoal, com a incorporação do banco Schahin, que contou com recursos do Fundo Garantidor de Crédito, e comprou a operação da GE Money no Brasil. Os altos investimentos da instituição no patrocínio de clubes de futebol e compra de participações dos direitos econômicos de jogadores popularizaram o banco, fazendo-o conhecido nacionalmente, mas pouco ajudaram para torná-lo competitivo em relação aos grandes, que invadiram a seara do consignado.

O BMG já chegou a liderar os rankings de rentabilidade no setor financeiro, mas no primeiro trimestre do ano amargou prejuízo de R$ 69 milhões. Além disso, seu balanço recebeu ressalva dos auditores, por cujo critério a perda seria ainda maior. Agora, o banco mineiro terá acesso a recursos mais baratos, da base dos 40 milhões de clientes do Itaú. “A redução do custo nos permite competir em taxas e volumes satisfatórios”, afirmou o presidente do BMG, Ricardo Pentagna Guimarães. Como a partir de agora a maior parte do crédito gerado pelo BMG não ficará em seu balanço, será possível crescer sem novos aportes de capital. No ano passado, a família, que além do BMG tem negócios nos ramos imobiliário, industrial e agropecuário, já havia colocado R$ 1,1 bilhão na instituição.


Se futuramente resolver vender sua participação de 30% no banco, o Itaú terá direito de preferência. Setubal diz que a sociedade com a família permite crescer mais rapidamente no crédito consignado. “Nós não temos essa especialização”, afirmou. O modelo da joint venture, simples, mas engenhoso, poderá ser replicado nos próximos negócios do setor, afirma Renato Oliva, presidente da ABBC, associação que representa os bancos médios. “É interessante, preserva o que o banco médio faz de melhor, que é emprestar, e resolve a falta de capital para manter as carteiras”, diz.

MODELO EM XEQUE Mas, afinal, o que o Setubal viu no BMG e no crédito consignado? Por que investir num produto que deu prejuízo aos bancos médios? Algumas razões são bem claras. A mais óbvia é que um banco grande ganha dinheiro na operação porque seus custos de captação são mais baixos. Além disso, a inadimplência no crédito consignado é próxima de zero, uma vantagem quando outras carteiras, como a de veículos, sofrem com os calotes. “Estamos procurando ativos com risco mais baixo e spreads menores, em linha com a direção do governo de reduzir os juros”, disse Setubal. A menção ao governo não foi gratuita: na semana anterior, o banqueiro foi cobrado publicamente pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para baratear o crédito.

Enquanto os bancos privados vêm reduzindo sua expectativa de expansão do crédito neste ano de 20% para a faixa de 10% a 15% por conta do menor crescimento econômico, os empréstimos consignados exibem alta de 45%, neste ano, e chegaram ao recorde de R$ 9,5 bilhões em maio. Já representam 59% do estoque de crédito pessoal. A tendência é que a modalidade cresça ainda mais, daqui para a frente. Segundo o vice-presidente de varejo do Banco do Brasil, Alexandre Abreu, muitos clientes estão trocando dívidas mais caras, em cheque especial ou crédito pessoal, pelo consignado. “Ainda há muito espaço para crescer: os clientes querem juros mais baixos e os bancos, maior segurança contra a inadimplência”, diz Abreu.


As perdas com consignado são bem menores que as do crédito pessoal. Mas há uma razão ainda não explícita para a compra do BMG pelo Itaú: a completa mudança do mercado de crédito consignado que está sendo negociada, na surdina, entre os bancos e grandes conveniados, como a Previdência e governos estaduais, sob o olhar atento do BC. Um dos problemas para tornar o consignado rentável para os bancos médios é que todos os custos são pagos no início. O maior gasto é com a comissão para os “pastinhas”, que chega a representar até 20% do total emprestado. Isso faz com que os empréstimos consignados comecem dando prejuízo e se tornem rentáveis só depois de alguns meses. Os grandes bancos usam a estrutura de suas redes com milhares de agências.

Mas os médios dependem dos agentes de crédito para emprestar. O problema é que o pagamento imediato das comissões estimula o refinanciamento entre os bancos médios. Ao trocar um crédito no banco X por outro do banco Y, o cliente paga antecipadamente a primeira operação, ainda numa fase em que ela está gerando perda. No novo empréstimo, o pastinha recebe mais 20% imediatamente. O que os bancos discutem agora, segundo apurou a DINHEIRO, é pagar as comissões aos milhares de pastinhas em parcelas. Assim, o agente de crédito teria interesse em manter a operação no primeiro banco por mais tempo. Com isso, todo o sistema teria os mesmos prazos, desde o pagamento das comissões até o reconhecimento da receita com a venda de carteiras.

A mudança é bem vista pelo BC, às voltas com uma sucessão de problemas em bancos médios nos últimos meses. A maior parte dos bancos que quebraram recentemente concentrava seus negócios em consignado, como o Matone, vendido à J&F, holding do frigorífico JBS, o Panamericano, controlado pelo BTG Pactual e pela Caixa, e o Cruzeiro do Sul, sob administração do FGC. Os casos de fraude, em parte, tentavam mascarar as operações deficitárias. Os compradores desses bancos, que contaram com a ajuda do FGC, agora enfrentam o problema. O presidente da J&F, Joesley Batista, que rebatizou o Matone de Original, diz que o modelo de consignado como é feito hoje pelos bancos médios não se sustenta.


“Todo mundo está procurando uma solução, que até agora não existe”, afirmou à DINHEIRO. Por isso, o Original está explorando outros nichos de negócio, como crédito a empresas médias, concessão de crédito pessoal e venda de seguros. Mudar a forma de pagamento das comissões pode ser o primeiro passo para chegar à solução — mas ninguém diz que será fácil. O fato é que está muito clara a crise pela qual passam as instituições médias que não tem sócios de peso. “A questão crucial é a dificuldade e o preço cobrado para levantar recursos no mercado”, afirma o professor da Fipecafi, Silvio Paixão.

A desconfiança dos investidores já era grande desde o escândalo do Banco Panamericano, e se acentuou após a quebra do Cruzeiro do Sul, em junho. Para sobreviver sozinhos, esses bancos precisariam ser mais competentes que os de grande porte em atividades onde a margem é mais alta. Esse já foi o caso do consignado e do crédito a empresas médias. Não é mais: os gigantes bancários disputam o terreno palmo a palmo. “Só vai sobreviver quem tiver bons serviços, num nicho ou região muito específicos”, diz Paixão. Por tudo isso, o negócio do BMG com o Itaú representa uma luz no fim do túnel para os banqueiros de médio porte.


Solidez internacional

O cenário não está fácil para os bancos de médio porte, mas as grandes instituições brasileiras são consideradas cada vez mais sólidas em rankings internacionais. A agência de classsificação de risco de crédito Standard & Poor’s, por exemplo, elevou a nota atribuída a oito bancos brasileiros na semana passada: Bradesco, Citibank, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Santander Brasil, HSBC Brasil, Itaú Unibanco e Itaú BBA. A nota atribuída aos bancos acompanhou a elevação da classificação soberana brasileira, explicou a S&P.

A S&P eleva nota de 8 bancos e 2 estão entre os mais sólidos do mundo

Investidores estrangeiros estão mais ressabiados com ações e títulos de dívida externa de bancos médios, e agora preferem comprar os ativos dos grandes grupos brasileiros. Para eles, o cenário é outro: o Brasil é hoje classificado como “grau de investimento”, enquanto países europeus estão sendo rebaixados e seus bancos negociam pacotes de resgate bilionários. Com isso, os bancos nacionais estão sendo considerados muito seguros internacionalmente. Num levantamento recente feito pela revista Bloomberg Markets, por exemplo, o Bradesco e a filial brasileira do Santander aparecem na lista dos 20 bancos mais sólidos do mundo. Fonte

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