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13 de janeiro de 2011

A arte de ser gringo

Um dos mais famosos escritores do país, Fabrício Carpinejar fala de sua cidade natal, Caxias do Sul/RS

O gringo é um estado de espírito espalhafatoso, evidenciado pelo senso de humor, princípios morais fortes e aspereza afetuosa.

Não age, reage, sai discursando no cumprimento. Sempre está se explicando. Não pergunta se vai chover, faz chover. Fala com os gestos, as mãos prolongam as cordas vocais. Tem razão quando não tem razão. O que interessa é ser ouvido.

Como graceja o livreiro Arcangelo Zorzi Neto, o Maneco, 54 anos, a última palavra sempre é do marido:

– Sim, senhora!

O gringo gosta tanto de si que suas manias escapam das críticas e assumem o aspecto simpático de eufemismos: não é gritão, é passional; não é fofoqueiro, é preocupado.

– É preciso comer muito, colocar religião no tempero, preferir macarrão colorido e molho ao sugo, ser ciumento, provocar quem ama, gritar palavrão quando o dicionário não basta – explica Terezinha Onzi Sperafico, 70.

Gringo não fica sozinho, está eternamente recrutando parentes. Abusa de cores fortes: verde, vermelho, laranja. Alterna as tintas das paredes para mostrar que a morada nunca é a igual, mas variada por dentro. Também não joga nada fora. Adora colecionar cacareco. A residência terá um quartinho, para conservar objetos e móveis antigos. Segue à risca o mandamento de “guardar, pois pode precisar um dia”.

Seu sotaque é uma assinatura no vento. Troca o “ão” do final das palavras pelo “on”: manson, monton, avion, televison. E os dois erres por um somente, numa simplicidade infantil: caroça, gara, sera, churasco.

O gringo criou uma coreografia peculiar nos passeios pelo centro da cidade. Famílias andam engatadas pelos braços nas ruas Júlio de Castilhos, Sinimbu e Os 18 do Forte. Como se fosse um arrastão, um cabo de força. Tomam a lateral da calçada.

– É uma forma de se proteger e de estar próximo dos ouvidos para falar bem ou mal dos outros – ri Renata Paim Bossardi, 26.

As esquinas funcionam como uma seção de achados e perdidos. A tática é parar numa delas quando um familiar some nas andanças pelas lojas. O trio de baianas formado pela mãe Eliana Debon, 54, e suas filhas gêmeas Thaís e Thaína, de 24 anos, adotou o hábito.

– Quando a gente se extravia, esperamos na esquina, é um caixa 24h de pessoas – afirma Thaís.

Em Caxias, a base é a família, a identidade é o trabalho.

Numa conversa, a pergunta “Em que você trabalha?” vem em primeiro lugar. A segunda questão refere-se à família: “Já casou? Tem filhos?”. Descobrir o nome é de menos, inclusive porque gringo tem apelido.

– Não ter família aqui é ateísmo. Até hoje há a prática de interromper qualquer tarefa para almoçar em casa – pontua o escritor Paulo Ribeiro, 50, professor da UCS.

A refeição é farta, em grandes porções. Não é somente nas galeterias que ocorre um rodízio faraônico, mas pela rede inteira de restaurantes. Talvez seja o único ponto gastronômico do mundo em que o bauru é um bufê.

– A gente almoça pensando na janta – descreve a artista plástica Mara de Carli Santos, 56.

A preocupação com emprego se deve às grandes indústrias da região, o segundo maior polo industrial metal-mecânico do país.

– É incrível, enfrentaremos engarrafamento às 5h, com o pessoal indo para fábrica – avisa Ribeiro.

Para ser mesmo gringo, um pré-requisito inadiável é contar com uma nona. Vó recebe a promoção ao completar oito décadas.

Ilha Facchin Mantesso, 84, atingiu o estágio. Viúva, vive cercada dos mimos de seus dois filhos e dois netos, que se enraizaram no bairro Panazzolo de propósito, para vigiá-la.

– Não tem como fazer segredo em família de gringo, as coisas são às claras.

Deitada no sofá ou secando a louça, ela não se descola da elegância. Sente-se viva em movimento, cuidando da ordem doméstica. Diz que gringo não pede desculpa, agradece a Deus.

– Graças ao bom Pai, não fiz maldade, a não ser afogar gambá – diz.

Uma das catequistas pioneiras de Caxias do Sul, contadora de histórias de quatro gerações, não reclama da falta de infância e dos sacrifícios na roça e no plantio de uvas. Seus olhos claros são o álbum da família. De imigrantes de pés descalços e uma vontade férrea de repetir a Itália do outro lado do oceano.

– Ser gringo é carregar enxada que nem louco: saco vazio não permanece de pé – confessa, com a convicção de quem tem a alma extraordinariamente cheia.

– Não é fácil ser gringo. Há toda uma arte, uma costura de rituais e de temperamento – diz o filho ilustre.Fonte

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