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16 de junho de 2011

As rádios brasileiras contra as guitarras

Vindos de uma trajetória independente, os gaúchos da banda Fresno fizeram barulho na internet. Até que, em 2007, participaram do álbum MTV Ao Vivo – 5 Bandas de Rock, ao lado dos grupos Moptop, Hateen, Forfun e NX Zero. Seu single, Polo, que estava nessa coletânea, foi parar nas rádios. Qual não foi a surpresa deles ao ouvirem a canção no dial. “As guitarras estavam mais baixas do que na versão original”, lembra Lucas Silveira, vocalista e guitarrista do Fresno. “Foi estranho escutar essa versão para o rádio”.

A música Polo foi incorporada ao repertório do quarto disco da banda, Redenção, lançado há 3 anos, pela gravadora Universal. Em 2010, veio o CD Revanche e, junto com o novo trabalho, o desejo de virar a mesa contra essa espécie de guerra contra as guitarras.

Eles cogitam iniciar uma campanha que mobilize os fãs a reivindicar gravações originais nas rádios. “Quando tentam adequar seu som, tiram a alma do negócio. Podemos gravar versões acústicas? Claro. Nada contra. Desde que tenha nascido desse jeito”, analisa Lucas.

Assim como Fresno, outras bandas de rock já se viram em meio a situações semelhantes. E, no mínimo, inimagináveis quando se sabe que roqueiros têm na guitarra a alma de sua música. Estaria o rock enfrentando uma “ditadura do acústico”, reforçada pela extinção das rádios segmentadas e pela pasteurização da programação musical das emissoras?

Lucas Silveira acredita que sim. Seu conterrâneo Beto Bruno, vocalista do Cachorro Grande, concorda. “As rádios descaracterizam a música das bandas. Tiram as guitarras, querem mais violão. Isso não torna a música mais pop”, reclama. Para que isso não aconteça, a banda deve se posicionar, acredita Beto. “Temos de dizer ‘não’ a essa onda”, afirma.

Capital Inicial ao vivo no SWU de 2010
Foto: Flavio Moraes / Fotoarena

O vocalista do Capital Inicial, Dinho Ouro Preto, atesta que o número de execuções da banda no rádio é inversamente proporcional à quantidade de guitarras na música. “Quanto mais guitarras, menos execuções. Mas que se dane! Para mim, é mais importante fazer um disco que os fãs gostem”, diz ele.

No estúdio e nos shows, os integrantes do Capital Inicial não abrem mão de ser fieis ao seu som. Mas fazem, espontaneamente, algumas versões menos pesadas, para terem chance de tocar nas rádios. É o chamado crossover (quando a música aparece em diferentes gêneros).

O que, ainda assim, não é 100% de garantia que emplaquem. “Damos uma moderada, mas do nosso jeito. E, mesmo assim, chegam a pedir pra gente baixar ainda mais a guitarra. E isso a gente não faz”, garante Dinho.

O produtor Carlos Eduardo Miranda lembra que essa ditadura do acústico não vem de hoje. O disco de estreia do Raimundos, lançado em 1994 e que ele produziu, trouxe no repertório uma versão acústica da canção Selim. No mesmo álbum, já havia a gravação original, com guitarra.

Foi uma espécie de resposta a uma gravadora que, quando procurada pela banda, exigiu que tirassem os palavrões das letras e diminuíssem as guitarras. “Botei essa música de zoeira no disco. Nada elaborado, para encher linguiça. E acabou sendo a mais tocada nas rádios”, conta Miranda.

Para ele, há outra ditadura musical acontecendo. “Vivemos a ditadura do não-incômodo. Quem toca em rádio já faz CD pensando nisso ou já tem as características do pop. O que não é crime. O Skank, por exemplo, não tem distorções e é bem legal”.

De rock para pop

Homem por trás da carreira de bandas como NX Zero, CPM 22 e Mamonas Assassinas, o produtor Rick Bonadio afirma que o pedido de versões light de músicas originalmente pesadas parte das próprias rádios. “Mas eles não pedem sem motivo. Há pesquisas que mostram que o ouvinte não quer escutar guitarras”, diz.

Rick admite que não gosta de versões. Acha que a energia da música muda. Mas entende que, se o público pede uma coisa, a emissora de rádio tem de corresponder. E quem quiser tocar nela, também. “O rádio ainda é importante. Sem ele, não se chega ao grande público”, destaca o produtor.

A banda Cachorro Grande
Foto: JF DIORIO/AE

A pesquisa mencionada por Rick é confirmada por Waguinho Rocha, diretor artístico da Fast 89 FM. “O ouvinte gosta mais de acústico, é mais fácil de ouvir”, diz. Uma tendência que vem de quatro anos para cá. Assim, a antiga Rádio Rock virou pop, sob a nova pecha de Fast 89 FM, em voga desde fevereiro deste ano.

“O ouvinte passou a gostar de muita coisa”, diz Waguinho. Segundo Paulo Junqueiro, diretor artístico da gravadora EMI, no mundo todo, é normal as rádios sugerirem às bandas fazerem versões diferentes das músicas originais.

“Não precisa ser, necessariamente, mais acústica. Pode ser o oposto: uma versão mais pesada ou mais dance de uma música que, originalmente, foi gravada de uma forma mais acústica ou mais leve”, declara ele. Junqueiro garante que essa decisão é tomada em parceria com os artistas.

“Se concluímos, em conjunto, que pode descaracterizar o trabalho, não lançamos”. Na prática, porém, parece que não é bem assim. Afinal, se essa consulta fosse realmente feita, os músicos do Fresno, Capital Inicial e Cachorro Grande não estariam reclamando da ditadura do acústico. Fonte

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